quarta-feira, 11 de março de 2009

UMA FÉ INABALÁVEL

Uma fé inabalável
Por Cristiano Catarin


Há pouco mais de duzentos e trinta e três anos Portugal enfrentava seu momento de maior pavor e destruição causado por um grande terremoto que atingira a até então pacata cidade de Lisboa no primeiro dia de novembro de 1755 .




Era feriado, dia de Todos os Santos. Lisboa preparava-se para manifestações de fé e festividades. Entretanto, nas primeiras horas da manhã daquele 1º de novembro o feriado religioso seria cenário de um atemorizante terremoto, seguido de grande incêndio e por fim, de um esmagador maremoto com a elevação das águas do rio Tejo em mais de oito metros do seu costumeiro nível.

A tragédia parecia uma união de três forças juntando-se para atingir e destruir a cidade portuguesa. Era muita desgraça para tão pouco tempo: milhares de mortos – casas, igrejas, conventos e palácios destruídos – a fúria estava alocada em Portugal.


Muitas foram às interpretações a respeito de tal tragédia. Numa cidade impregnada de presságios, superstições e misticismo, grande parte do povo estava convicta de que tal tragédia fazia referência a uma espécie de acerto de contas do Todo Poderoso Deus. Os adeptos do sebastianismo (crença desenvolvida na época em que o então rei d. Sebastião desapareceu após dirigir-se para Batalha de Alcácer-Quibir em 1578, muitos aguardam sua volta triunfante como messias) não demoraram em relacionar tal episódio a suas esperanças sobrenaturais.

Por outro lado, muitos defendiam que Lisboa fora vítima de uma fatalidade e que, na verdade, tal tragédia poderia ter ocorrido em qualquer região. E era esta a versão que a as pessoas próximas da Casa Real pretendiam passar.


O fato é que independentemente das justificativas, o saldo desta catástrofe era desolador. Milhares de mortos (embora não existam registros confiáveis do número total de vítimas, alguns falam em, 10, 15 70, 90 ou até 100 mil, o próprio Marquês de Pombal preferiu divulgar um numero mais modesto, algo em entre sete a nove mil mortos), das vinte mil casas existentes na época, cerca de três mil sobreviveram aos estragos; palácios, hospitais, igrejas, nada escapou da terrível força destrutiva que atingiu Lisboa.


Dentre as vítimas, a maioria dos fidalgos e praticamente toda Casa Real não sofreram qualquer dano, visto que não estavam presentes nos eventos comemorativos daquele dia de Todos os Santos. A nobreza tinha sim, o hábito de prestigiar tais eventos, porém marcava sua presença para depois das 11 horas da manhã, horário em que (naquela ocasião) já havia ocorrido toda desgraça. Dos fidalgos, cerca de oito perderam suas vidas no desastre de primeiro de novembro. Sendo assim, o povo foi quem mais sofreu baixas com o terremoto, visto que muitos estavam orando e assistindo missas espalhados pelas diversas igrejas e conventos de Lisboa.

Dos sessenta e cinco conventos da cidade portuguesa, apenas onze permaneceram em pé (em condições precárias, é verdade). A Lisboa de novembro de 1755 era um cenário de desolação, destruição e inconformismo. Todos os hospitais foram destruídos, havia pedaços de corpos humanos espalhados por toda parte.

Numa cidade em que a religiosidade tomava conta de grande parte da população, os milagres atribuídos ao episódio do terremoto não foram poucos: o padre Manoel Portal, sobrevivente no momento do desabamento de sua igreja, estava seguro de que havia previsto em sonho tido naquela noite (da qual se tornaria manhã de 1º de novembro), o fatídico acontecimento. Para ele, o sonho tornou-se realidade, ainda que desastrosa para os portugueses. A sobrevivência de uma jovenzinha aos braços de sua mãe morta e a preservação intacta de uma imagem de Nossa Senhora do Carmo num convento tomado pelo fogo acompanham os milagres que se apresentaram da tragédia. São relatos que reforçam a fé e o crédito na estreita relação estabelecida entre a catástrofe e o mundo divino.


Histórias pessoais também passaram a contar com o “amparo da realidade” e ampliaram-se em forma e força de lendas. Uma dessas lendas fica por conta de um certo conde da Ribera que cortejava durante muitos anos uma donzela. Suas investidas eram correspondidas, entretanto, o pai da pretendida não demonstrava disposição em aceitar tal união, até que fora vencido ao perceber que o casal não desistiria de seu propósito amoroso. Logo depois de ouvirem as belas e esperadas palavras do sacerdote, os noivos foram surpreendidos ao ouvirem o terrível estrondo do primeiro abalo que atingira Lisboa. A partir daí tomaram a decisão de fugir do local refugiando-se numa embarcação na esperança de serem poupados do pior. Porém, as águas do rio Tejo, como informado anteriormente, sofreram grandes elevações e tragou muitas embarcações, inclusive a do casal recém casado.


O terremoto que atingiu Lisboa em 1755 não fora o único de sua história, outros dois pelo menos ocorreram em 1531 e 1597 respectivamente. De qualquer forma, a magnitude presente no de 1755 é sem dúvida bem maior em comparação aos demais mencionados. A cidade portuguesa era uma das grandes capitais da Europa dos anos 1750, ultrapassada somente por Londres, Paris, Amsterdã e Nápoles.



O poder da natureza dá lugar ao poder do homem





O ano de 1756 significou profundas mudanças na política interna de Portugal, sob o reinado de d. José I, Sebastião de Carvalho, mais tarde marquês de Pombal (1769), tornou-se secretário de Estado dos Negócios do Reino de Portugal, cargo equivalente atualmente a de um primeiro ministro. Pombal foi presenteado com grande poder de decisões, com ele na liderança do secretariado dos negócios estrangeiros, Portugal registraria um longo período de extrema e rigorosa concentração de poder do Estado, afastando toda e qualquer tentativa dos nobres em manifestarem-se independentes da vontade do rei e do Estado (o marquês utilizou desse poder absoluto por 21 dos 27 anos de governo).


Os jesuítas, constituintes da Companhia de Jesus também tiveram suas atividades destituídas. Para Pombal estas eram medidas inevitáveis para iniciar a reconstrução do país que ainda “sangrava as feridas” do terremoto. O marquês pretendia assim eliminar, o que pare ele eram os obstáculos mais poderosos para dar início a seus planos, tirando de cena os aristocratas e a poderosa ordem religiosa. A confiança oferecida pelo rei a Sebastião Carvalho, segundo alguns escritores, fica por conta da frase que ele, Pombal, teria dito em resposta a d. José I (ainda sob impacto da tragédia e confuso quanto ao que deveria ser feito para recomeçar e reconstruir Lisboa): “é preciso enterrar os mortos e cuidar dos vivos”!


Muitos dizem que depois da hecatombe de ordem natural (terrível terremoto de 1755) Portugal sofrera com o nascimento do poder de Pombal. Para o escritor Charles Boxer, “Pombal não admitia nenhuma tirania além da sua”.


Para saber mais:
SCHWARCZ, Lilia Moritz. (2002) A Longa Viagem da Biblioteca dos Reis: do terremoto de Lisboa à Independência do Brasil. Companhia das Letras, SP.
MAXWELL, Kenneth. (1998) O Marquês de Pombal: paradoxo do iluminismo. Paz e Terra, RJ. BOXER, Charles. (1969) A Idade de Ouro do Brasil. Nacional, SP.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

1808 - A Corte Portuguesa no Brasil

1808 - A vinda da Corte Portuguesa para o Rio de Janeiro

1) Situação em Portugal:
A Europa está devastada pelo furacão Napoleão que mexeu em todos os tronos europeus e, no fim de 1807, está chegando em Portugal. É a madrugada de 27/11/1807 e a corte, desesperada, se atropela com pressa e desordem no cais de Belém para embarcar, filhas sem pais, mulheres sem marido, pessoas da mais alta nobreza que esperam subir a bordo com a roupa do corpo e com pouco ou nenhum dinheiro. D. João chegou acompanhado de D. Pedro Carlos, infante de Espanha, primo de Carlota Joaquina, e tomam a nau capitânia Príncipe Real com 67 m. de comprimento que recebe mais de 1.000 passageiros e é a sala do trono flutuante da monarquia portuguesa, logo depois chegam Dona Carlota, D. Pedro, as infantas e o infante D. Miguel, e se dividem em 4 navios, por questão de segurança dinástica, D. Pedro e D. Miguel embarcam com o pai; dona Carlota e 4 filhas embarcam na fragata Alfonso de Albuquerque; espera-se a rainha, Dona Maria 1a, a Louca, com 73 anos que aos urros entremeados de lamúrias e exclamações de Ai Jesus!, Ai Jesus!, se recusa a embarcar, pois quer ficar com o povo e resistir e, finalmente, é carregada nos braços pelo comandante da frota real e embarca no Príncipe Real. As 2 princesas do meio embarcam no Rainha de Portugal enquanto a tia e a cunhada de D. João embarcam no Príncipe do Brasil. Trazem consigo, metade do tesouro português, algo em torno de 80 milhões de cruzados, a outra metade já fora quase toda gasta para comprar a neutralidade com a França de Napoleão, sequiosa dos tronos europeus, e o que resta em Lisboa, cerca de 10 milhões de cruzados, não dava para mover o reino e pagar as dívidas, o que fará o general Junot derreter toda a prataria das igrejas e palácios para pagar a manutenção das tropas francesas em Portugal na guerra que se seguirá e que matará 250.000 portugueses, ou seja, 1/12 da população portuguesa. A transferência para o Brasil já fora sugerida pelo famoso padre Antonio Vieira, conselheiro de D. João 4o (1641-1656). Depois, com a crescente penúria de Portugal e a enorme riqueza que vinha do Brasil, Luis da Cunha, diplomata de D. João 5o (1706-1750), reexamina a mudança proposta por Vieira, pois acha muito mais racional administrar o Brasil in situ. Com o furacão napoleônico, a loucura de D. Maria 1a e a crescente insegurança de Portugal, a transferência volta a ser cogitada por Rodrigo de Sousa Coutinho, futuro Conde de Linhares, que declara à Corte em 1798: que os domínios na Europa já não constituíam a capital e o centro do império Português. A situação européia está muito complicada por conta da exigência de Napoleão do Bloqueio Comercial contra a Inglaterra. Em 1806, o espanhol Manoel de Godoy 1o Ministro de Carlos 4o, e amante da rainha Maria Luisa, procura efetivar junto a Paris a partilha de Portugal em 3 partes: ao Norte a Etrúria, com o Minho e o Douro tendo o Porto por capital que seria entregue ao genro de Carlos 4o, Luis de Parma, como Rei de Etrúria, o Sul com o Alentejo e o Algarves fica para Godoy que terá o titulo de príncipe dos Algarves, o Centro com a Beira, Trás os Montes e Estremadura fica para os Bragança tendo Carlota Joaquina como regente. Em julho de 1807 o embaixador português em Paris recebe um ultimato para que Portugal rompa as relações com a Inglaterra. A 3/11/1807 Portugal concorda e manda pelo Marquês de Marialva diamantes brasileiros para acalmar Napoleão e solicita a Lord Strangford, o embaixador inglês de 27 anos tradutor de Camões, que se retire do país; a 18/11 Strangford pede o passaporte, fecha a embaixada e se abriga na esquadra inglesa ao largo de Lisboa, comandada por sir Sidney Smith, sendo que, os navios HMS Marborough, Bedford, London e Monarch sob o comando de Graham Moore escoltariam a frota portuguesa até o Brasil. Esta proteção inglesa seria duramente cobrada pela Inglaterra através de um tratado feito por Lord Strangford em 1810, com total apoio de Rodrigo de Sousa Coutinho que por tal auxílio recebe, como cortesia, um retrato de Jorge 3o da Inglaterra com enfeites de diamantes e uma caixa de diamantes. Este malfadado tratado, pessimamente recebido pela Corte, atinge diretamente a soberania do reino com as seguintes particularidades: os ingleses estariam sujeitos somente à sua própria justiça, seus navios de guerra teriam acesso ilimitado às águas brasileiras e, quando em missão de proteção, eles seriam abastecidos pela Corte, a madeira brasileira poderia ser usada para a construção naval britânica, os ingleses poderiam negociar e possuir propriedades sem nenhuma restrição, não estariam sujeitos à Inquisição e teriam liberdade de culto, e o pior de tudo, a mais escandalosa sujeição, para os ingleses as taxas seriam apenas de 15% enquanto que para os brasileiros e portugueses a taxa era de 16%!!! Alem disso, o altíssimo custo de instalação da corte no Rio, que estava falida, obrigou D. João a obter um empréstimo de 600.000 libras da Inglaterra para manter funcionando a gigantesca burocracia da Corte dando como garantias de pagamento as receitas do arquipélago da Madeira e o monopólio da Coroa sobre o pau-brasil, receitas que eram vitais para o reino. Portugal já vinha, desde a época pós-descobrimentos, perdendo sua importância e força econômica e política no contexto mundial, que fora imensa com mais de 50 fortes ao longo das ricas costas asiáticas que dominavam as rotas e transações comerciais que davam lucros extraordinários para Portugal, pois, infelizmente, a tenacidade, competência técnica, empresarial e logística que demonstrara e o fizera dono do comércio global acabara. Dois fatos causam um enorme prejuízo às finanças do reino: a Restauração dos Bragança, após o domínio espanhol de 1580 a 1640 custou muito caro, pois o auxilio inglês significou o casamento da filha de D. João 4o com o rei Carlos 2o da Inglaterra em 1661 e, para isso, houve o dote de 2 milhões de cruzados e a entrega da região de Tanger e Bombaim. A alegada expulsão dos holandeses de Pernambuco, em 1654, que fora o ponto mais rico do mundo colonial português com sua exportação de açúcar atingindo 700 mil arrobas, fez com que, entre 1661 (Tratado de paz de Haia) e 1730, Portugal tivesse que pagar à Holanda, 4 milhões de cruzados de indenização, além de entregar o Ceilão e as ilhas Molucas para a Holanda. Por conta dessa desastrada política de entrega de patrimônio e perda de renda, em 1800 Portugal já está sem força, pois acabara o dinheiro que vinha do Brasil, cujo apogeu foi entre 1750 e 1760, quando se estima que veio uma fortuna de 2,5 milhões de toneladas de ouro e 1,5 milhões de quilates de diamantes (ou 1.094 toneladas de ouro e 3 milhões de quilates de brilhantes), que ajudou a reconstruir Lisboa destruída pelo terremoto ao tempo de D. José 1o e do Marquês de Pombal cuja energia, dinamismo e autoridade tiraram Portugal da letargia em que estava desde a época pós-descobrimento abrindo as portas da Corte para os riquíssimos comerciantes que queriam ser nobres, aliás, como já fizera D. João 5o, visando conseguir recursos para manter o fausto da Corte empobrecida. Portugal era um país em acelerado processo de decadência, como metrópole autônoma, pois começou dando ao comerciante inglês as condições de igualdade com o português, avançou a ponto de sacrificar nossa indústria em prol da britânica e acabou por concordar em eliminar a lavoura brasileira para favorecer a agricultura das colônias inglesas das Antilhas.

2) A Viagem:
A esquadra era provavelmente composta de 8 naus, 3 fragatas, 2 brigues, 1 escuna de guerra, 1 charrua de mantimentos e mais vários navios mercantes da marinha portuguesa num total de 56 barcos conforme os registros de bordo recuperados por Kenneth Light, ou 36 velas conforme Lord Strangford. Quanto ao número de emigrados varia enormemente, temos 15.000 (Schultz, 1998), minuciosos 13.800 (Rocha Martins IHGB, 1910), entre 8.000 e 15.000 (Manchester, Transferência da Corte para o Brasil) e, hoje em dia, fala-se no total de apenas 522 pessoas sendo 420 civis e 102 militares (Esparteiros, 1979, que aparecem no Almanaque da cidade do Rio de Janeiro de 1811, ou na Gazeta), citado por Nereu Cavalcanti, no Rio de Janeiro setecentista, porém, Kenneth Light, no livro The Migration of the Royal Family, baseado na carta que o comandante inglês, James Walker, do Bedford, enviou ao Almirantado em Londres informa que, só no Príncipe Real (com 67 m. por 16,5 m.) estavam 1.054 pessoas e, alem disso, ele avalia que de tripulantes havia entre 6.000 a 7.000. Nesta animada celeuma/controvérsia eu opino que deveria haver entre 5.000 e 10.000 fugitivos uma vez que, apenas na nau Príncipe Real viajavam 1.054, o que demonstra que essa quantidade de barcos (56 ou 36) era excessiva para trazer apenas 502 pessoas! Há que se considerar que, pelos usos e costumes da época, a Família Real era servida tanto por inúmeras famílias nobres como por enorme criadagem. Temos como referencia o palácio de Versalhes onde havia 6.000 pessoas a serviço da família real, entre nobres da mais alta estirpe e criadagem e o Príncipe de Condé, num jantar para apenas 8 convivas, tem 25 empregados servindo à mesa, fora a équipage de apoio interna. A esquadra deixa a barra do Tejo às 7,00 h. de 29/11/1807. A frota chegou a ser avistada por Junot quando chegou a Lisboa e, daí, vem o dito ficou a ver navios. Muitos nobres do velho regime não quiseram fugir, ainda abalados com o Massacre dos Távoras, em 1759 que supliciara membros da mais alta nobreza: o Duque de Aveiro, o Marques e Marquesa de Távora e o filho Marques novo de Távora e o Conde de Atouguia, feito na época do Marquês de Pombal, o enérgico 1o Ministro de D. José. Alguns nobres aderem ao inimigo e se apressam a fazer rapapés ao General Junot e a sua mulher Laura, Duquesa de d´Abrantès, que era da alta sociedade napoleônica, convidando-os para recepções. A viagem é cheia de privações, não há água corrente nem banheiros e as necessidades fisiológicas eram feitas em plataformas suspensas sobre a amurada dos navios, alem disso, na pressa do embarque, água, víveres, roupa de cama foram deixados no cais e precisam solicitar lençóis e cobertores da marinha britânica. Não há roupa de baixo para troca e na Alfonso de Albuquerque há uma infestação de piolhos que obriga as mulheres a raspar a cabeça, começando com Carlota Joaquina e as princesas reais. Não há nenhuma privacidade e alguns nobres têm que dormir no convés ao relento, sem camas nem cobertas, sendo molhados pelo mar. A frota se divide após tempestade na ilha da Madeira, e a Príncipe Real e a Alfonso de Albuquerque à 22/1/1808, após 54 dias chegam a Salvador (46.000 habitantes) e onde a família real pisa o solo brasileiro pela 1a vez para agitação dos baianos que não os esperavam, aí ficando até 26/2/1808, seu primeiro compromisso oficial foi uma missa na catedral da Sé. Entretanto a Rainha de Portugal e a Príncipe do Brasil seguiram direto para o Rio, chegando a 17/1/1808, onde os viajantes permanecem a bordo aguardando a chegada do resto da esquadra, com a rainha Dona Maria e o regente D. João.

3) A chegada no Brasil:
Finalmente a corte reunida desembarca, às 15 horas de 7/3/1808, no Rio de Janeiro cuja população total era de 60.000 almas, das quais quase metade eram escravos negros e recebe esta multidão de emigrados precariamente. A chegada à baía da Guanabara é assim descrita por um viajante da época: Não existe viajante algum que, tendo visto o Rio, não fale com admiração do magnífico espetáculo proporcionado pela baía da cidade. Esta baía é ainda mais vasta que a baía de Constantinopla, pois tem 5 léguas de extensão por ¾ de milha de largura, é defendida por rochas graníticas de efeito grandioso e poderia acolher todas as frotas do mundo sem amontoamento. Quando se entra na baía, após o sofrimento da longa travessia, fica-se comovido com o esplendor do panorama: Porém que decepção se sente, oh meu Deus, quando se sai do ancoradouro?! Os perfumes que vem da baía são infectos!! A explicação é simples, a água das casas era transportada pelos escravos de várias fontes em barris semelhantes aos que, no fim da tarde, carregavam os detritos, pois as casas não têm fossa séptica já que o lençol freático, por causa do solo pantanoso, está muito próximo da superfície e todos os detritos domésticos são postos em barris que os escravos põem sobre a cabeça e vem, em procissão, para o mar onde os jogam, dá para imaginar o mau cheiro com o terrível calor do lugar, esses negros são como o símbolo da cidade. E o ponto onde jogam é próximo ao palácio e quem estiver na janela, não pode deixar de ver os horrorosos barris, que vão e vem na água da baía ao cair da tarde e cujo odor se faz sentir até o fundo dos quartos do Palácio Real e do Hotel Pharoux, que hospeda os estrangeiros e fica inabitável conforme a direção do vento. Mais tarde, uma viajante francesa diz que as margens da baía não passam de um vaso sanitário infecto e as praias que pareciam tão belas do navio, eram o receptáculo das imundícies de toda a cidade!!!! A cidade andava extasiada com as notícias de que estava próximo o dia do rei, em pessoa, estar na exuberante capital tropical, e o vice-rei e capitão geral do Brasil, Dom Marcos de Noronha e Brito, apoiado pelos grandes da terra, preparava a recepção e a instalação da corte, dando exemplo ao despejar-se, a si próprio, do palacete em que vivia para cedê-lo aos ilustres migrantes sem teto. Do reino, da Inglaterra e França, fortes comerciantes, da Itália vários artistas, da Áustria sábios naturalistas e da costa da África, pretos de várias compleições, num total de 5.000 a 10.000 pessoas. Na realidade, não resta opção para os moradores, pois uma das primeiras leis baixadas pelo regente, D. João, foi o direito de aposentadoria que consta das Ordenações do Reino, nos livros 2 e 4. Essa prerrogativa de aposentos (lugar para morar) era oferecida às pessoas dotadas de privilégios, que detinham os diversos cargos públicos, civis, militares e eclesiásticos e as demais pessoas privilegiadas da sociedade quando se deslocavam para outro sítio longe de sua residência, a serviço do Estado, ou do rei, e cuja conseqüência prática foi pedir que os fluminenses que tivessem mais que uma propriedade, a cedesse aos migrados, ordem que era extensiva às lojas e armazéns. Esta lei esteve em vigor até 1818. Para se entender essa forte arbitrariedade há que se entender o poder do rei em uma Monarquia Absolutista onde o Estado era apenas um aspecto da glória do rei e não havia separação nítida entre as ações, desejos e vontades do rei, tanto no Estado como em sua vida particular, pois o rei é o senhor de tudo e reinava no país como dono da casa e em casa como dono do país. A corte do antigo regime estamental é entendida como uma imensa casa do rei, e essa posse chega a tudo, tanto é que a separação dos fundos econômicos da Casa de Bragança e os fundos do Estado português só serão resolvidos com a criação de um Erário Público no 1o Reinado, por D. Pedro 1o Imperador do Brasil (1822-1831).

4) D. João 6o:
(*13/5/1767-+10/3/1827), 27o Rei de Portugal, Duque de Bragança, Barcelos e Guimarães, Marquês de Viçosa, Conde de Arraiolos, é muito feio, baixo, gordo, bonachão, comilão chegando a devorar 3 frangos seguidos, arrematados por 4 ou 5 mangas, acompanhados por água, uma vez que raramente bebia vinho, era sossegado e sem vaidades, não gostava de roupas novas, muito carola e só foi rei porque seu irmão José morre de varíola em 1788 e a mãe é, oficialmente, declarada louca!!! em 1799, tornando-o Príncipe Regente, uma das causas desta loucura pode ter sido a tremenda culpa que Dona Maria sentiu por não ter permitido que D. José se vacinasse contra a varíola. Porém, apesar de uma aparente fraqueza ele representa a visão do futuro e da adaptabilidade à nova ordem, pós-revolução francesa na Corte portuguesa, é ele a querer vir para o novo mundo, é ele a querer ficar, e a fazer o Brasil, Colônia e Vice Reino de 1500 a 1808, virar Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves (1808-1822), é ele a abrir os portos brasileiros logo ao chegar em Salvador, BA, a 28/1/1808, num ato que é considerado o início da nossa emancipação econômica, é ele em Abril de 1808 a dar o Alvará de Liberdade Industrial que permite a abertura da tecelagem, da manufatura de metais e alimentos, porém a alegria dura pouco e os ingleses forçam-no a taxar a mercadoria brasileira em 16%, enquanto que a inglesa tem apenas taxa de 15%, o que faz fracassar a indústria brasileira e o Brasil ser inundado com produtos ingleses sem penetração na Europa por conta do Bloqueio de Napoleão, é ele que em 1808 funda o Banco do Brasil para regular a moeda, porém o desmando e a corrupção são de tal ordem e o dinheiro é emitido em tal quantidade que o lastro de ouro é superado e o dinheiro perde o valor e a respeitabilidade e o Banco fecha as portas em 1828, insolvente, é a D. João VI que o Brasil deve o futuro de grande esplendor econômico do café no Império, pois entrega com as próprias mãos aos vassalos, mais chegados à corte, as mudas de café que manda trazer da África, ele construiu o Jardim Botânico, um observatório astronômico, um teatro, uma biblioteca pública, a tipografia real, uma fábrica de pólvora, a Academia Militar, a Academia da Marinha. É ele, finalmente, a ter a perspicácia e visão política do futuro ao fazer o filho ficar, cá no Brasil, quando urge voltar a Portugal para acalmar os ânimos dos reinóis indignados com a ausência do rei, é ele, D. João 6º, injustiçado pela história oficial que não lhe dá a unanimidade ao julgar como sua, a decisão de vir para o Brasil como estrategista competente que era é ele, sem dúvida, a grande figura da Casa de Bragança desta corte no exílio e a quem o Brasil deve sua existência como Nação. Ele foi um dos poucos monarcas europeus a reinar continuamente durante a época napoleônica o único a me tapear em todos os tempos como escreveu, sobre ele, Napoleão em Santa Helena. Sua vida no Rio, na Quinta da Boa Vista, é muito simples, acorda às 6,00 h., assiste à missa, é barbeado, toma o café da manhã e discute a administração da cidade. Almoça ao meio dia numa grande mesa oval e cercado por todos os nobres e dignitários e ao fim é assistido por D. Pedro que segura a bacia de prata e por D. Miguel que derrama água para que ele lave as mãos após a refeição. É fato histórico que guardava frangos inteiros nos bolsos das casacas engorduradas e puídas, Tobias Barreto informa que: não havia registro de D. João VI ter tomado banho de corpo inteiro tanto em Lisboa como no Rio. Dorme um pouco após o almoço e depois cuida dos negócios, passeia pela cidade e visita a mãe. Dorme por volta das 23,00 h.

5) Carlota Joaquina:
(*25/4/1777-+7/1/1830), é a 1a filha de Carlos 4o de Espanha e de Maria Luisa, a fogosa rainha que brigou com a Duquesa de Alba por ciúmes de Goia o grande pintor dos reis de Espanha. Carlota era bisneta de Luís XV, tetraneta de Luís XIV, ambos reis de França e profundamente orgulhosa de sua origem Bourbon, era horrível com um rosto anguloso e quase masculino, com barba e bigode, com menos de 1,50 m e sonhava com a grandeza da Espanha, ela detestava o Brasil não vendo a hora de voltar para a Europa, não houve na corte no exílio, quem mais fez intrigas, e das mais ambiciosas, inclusive para submeter o reino português aos domínios espanhóis ou conseguir a Coroa de Espanha para si própria uma vez que seu pai Carlos 4o e seu irmão Fernando 7o estavam prisioneiros de Napoleão. Arrogante, cruel, vingativa e impetuosa tinha um gosto espalhafatoso para roupas e jóias tendo a cabeça adornada com um arranjo de jóias e plumas, foi considerada a Messalina, a Maria Antonieta de Portugal. Tentou destronar o marido em 1805, mas foi impedida por D. João que passou a viver separado dela. Ela vive irrequieta, se deslocando do palácio Real no centro para um palacete num morro vizinho e para uma casa na praia do Botafogo, sempre cavalgando pela cidade cercada por uma guarda pessoal e exigindo que os passantes sejam quem forem, nobres ou estrangeiros, parem se ajoelhem e façam reverências em sua passagem e mandando sua guarda pessoal agredir quem não as faça, isto gera tantos incidentes diplomáticos que D. João 6o isenta os estrangeiros desta obrigação. Quando sua filha mais velha Maria Teresa se casa, em 1810, com o primo D. Pedro Carlos, Infante de Espanha, ela fica furiosa e diz que prefere a filha jogada num poço à casada com seu primo. Ao voltar para Portugal com D. João 6o levando 4.000 cortesãos a 25/4/1821 ela disse, vou enfim encontrar uma terra habitada por homens, vivi 13 anos no escuro só vendo pretos e mulatos. D. João e Carlota Joaquina, tiveram 9 filhos, entre eles: 1 Imperador e Rei, 1 Rei e 2 Rainhas: Maria Teresa, princesa da Beira; mulher de Pedro Carlos, Antonio, morto jovem; Maria Isabel, mulher de seu tio Fernando 7o (1784-1833) rei de Espanha; Pedro, 1o Imperador do Brasil e Rei Pedro 4o de Portugal; Maria Francisca mulher de Carlos 5o (1788-1855) rei de Espanha; Isabel Maria, regente de Portugal (1826-1828); Miguel, que pelo casamento com a filha de D. Pedro 1o, sua sobrinha, torna-se rei de Portugal; Maria, morta solteira e Ana Maria, duquesa de Loulé.

6) A adaptação da Corte aos trópicos:
A corte endividada, e atônita, com a novidade dos trópicos encontrou na colônia um tecido social que estava assim estruturado: Já existia na colônia uma aristocracia de poder econômico e privilégio social composta de senhores de engenho, criadores de gado e fazendeiros produtores de víveres e mercadorias, os quais agrupados em clãs impenetráveis controlavam as áreas situadas em torno das principais cidades litorâneas sendo que a aristocracia nordestina era simpática a Portugal e a do sul era resistente ao poder real, (Alan Manchester). A apologia do poder real enfatizava as propriedades inatas do soberano com seu caráter paternal para com seu povo e sua procedência divina e sua capacidade divina de conceder graças. A nobreza migrada, composta da mais alta nobreza de sangue e espada como os Marialva (1475), Penalva (1499), Abrantes (1504), Arcos (1620), Sabugosa (1640), Angeja (1654), São Miguel 1663, Lavradio (1664), Alorna (1667), Fronteira, Castelo Novo, São Lourenço, Óbidos, Gouveia, Ribeira Grande, S. João da Pesqueira, Alvor, Sta Cruz, Vila Nova, Assumar, Alva, Miranda do Corvo, e a nobreza de toga composta pelos comerciantes de grosso trato nobilitados a partir de D. João 5o, que são mais recentes e influentes nos cargos da administração do reino, como os Anadia, Pombal, Vagos, Belmonte ou, pois essas 2 nobrezas empenharam-se em manter sua proximidade com o Rei e alargar as distâncias que as separavam das elites da terra criando uma tensão sócio-cultural que marca a estada da corte no Brasil e foi usada por D. João 6o com maestria numa estratégia inteligentíssima para manter o controle do país e da Corte e preservar a Dinastia Bragança. Os emigrados passam suas primeiras semanas em completo estado de choque cultural e emocional horrorizados com o clima, a insalubridade da cidade e a vulgaridade dos brasileiros e apavorados com as tempestades tropicais cheias de raios e trovões, o marquês de Borba escreve, desesperado, para os familiares: é um mundo novo, mas para pior!!!, eu nunca pensei terminar meus dias em terra de tanta abominação e escândalo. Os anos de 1817 e 1818 foram os mais faustosos da permanência da corte no Brasil. Em particular o período entre a chegada da princesa Maria Leopoldina Josefina Carolina Von Habsburgo-Österreich, (22/1/1797-11/12/1826), filha de Francisco I, Imperador da Áustria-Hungria e Maria Teresa de Bourbon-Sicílias a 5/11/1817, para o casamento com D. Pedro, Duque de Bragança e Príncipe do Brasil e o aniversário e coroação e aclamação de D. João, a 13/5/1818, como monarca de uma centenária Casa Real européia. Foram inúmeras festas feitas com doações dos grandes negociantes nativos sempre com desfiles e arcos triunfais pelas ruas da cidade que deslumbraram, pelo luxo, fausto e riqueza, a população da cidade, pois eram acontecimentos totalmente inéditos para o Novo Mundo.

7) A adaptação dos brasileiros à Corte:
Os sentimentos de vassalagem dos fluminenses se exprimem pelos muitos e gordos donativos feitos para sustentar o dia a dia da corte que era de manutenção caríssima, e contínua, só em aves para a alimentação gastavam-se 75 contos de réis por mês, e, praticamente o rei não tinha nenhuma outra renda além da concessão das mercês, franqueada aos vassalos, como já era praxe em Portugal desde D. João 5o, 24o rei de Portugal, (1706-1750), e que era o principal capital econômico de que dispunha a monarquia para sobreviver. Em 1800 conseguia-se em Portugal, o Foro de Fidalgo por 25.000 cruzados e o Hábito de Cristo por 5.000 cruzados. Portugal foi diferente, das demais nobrezas territoriais européias, por não basear o seu estado, e o seu poder, exclusiva ou majoritariamente, nos senhorios da terra, lá havia uma categoria de nobre genuinamente lusitano, o fidalgo mercador. A partir do Marquês de Pombal, no século XVIII, se consolida em Portugal a importância dos grandes comerciantes na sociedade portuguesa que participam da máquina administrativa e lutam pelo ideal da nobilitação ficando cada vez mais ricos e poderosos, enquanto que a velha nobreza decaía e se endividava cada vez mais.

8) A Quinta da Boa Vista:
D. João se instala na Quinta da Boa Vista (São Cristóvão) que recebe em doação do comerciante Elias Antonio Lopes, e a quem ele confidenciou maravilhado (sic): Eis aqui huma varanda Real, Eu não tinha em Portugal cousa assim. Porém, a casa não convence como residência real a John Luccock que a considera: acanhada e pretensiosa, mal construída e pessimamente mobiliada. Dona Maria fica no convento do Carmo. Carlota Joaquina fica na antiga sede do vice-reino no centro da cidade, que vira o Palácio Real, que era absolutamente desprezível como habitação real, com 63,98 m. por 23,76 m. de área, porém é: um casarão sem nenhum mérito arquitetônico. Em 1817 a comitiva austríaca de dona Leopoldina se decepcionará com o palácio, que acha sujo e malcheiroso reclamando do estrume no terreno e das nuvens de insetos que atraíam: qualquer fidalgo alemão provinciano dispõe de uma residência mais bonita. A Quinta da Boa Vista avaliada em 400 cruzados rendeu a Elias a Comenda da Ordem de Cristo e o titulo de Cavaleiro da Casa Real, Elias ao morrer, em 1815, deixou uma fortuna de 235.908$701 (duzentos e trinta e cinco contos novecentos e oito mil setecentos e um réis) e, ainda mais, 110 escravos avaliados em 9 contos de réis.

9) O início da nobreza Brasileira:
Manuel José da Costa Filgueiras Gayo informa no Nobiliário de Famílias de Portugal, que o foro de Cavaleiro ou Escudeiro era sinal de nobreza de sangue, principalmente, quando esse título já era usado antes da reforma de D. Sebastião em 1572 reforma, esta, que simplificou, e facilitou, as exigências para qualificar os novos titulares já inseridos na nova dinâmica social de grandes fortunas que começa a imperar entre a nobreza de Portugal a partir do século XVII. Cabe aqui, uma referência histórica familiar, pois no século XV, meu 13o avô, João de Arantes, Morador da Casa Real e Senhor da Quinta de Romay, foi feito por El Rei D. João 2º (13o Rei de Portugal entre 1481-1495) de quem era companheiro de armas, Condestável dos Espingardeiros a 2/1/1488, (conforme o documento histórico que confirma esta nomeação), e ele já era qualificado como Cavaleiro Fidalgo de sangue e espada. Foram os comerciantes de grosso trato fluminenses, (que tinham preponderância sobre os outros setores econômicos existentes na colônia, como os comerciantes reinóis e a aristocracia agrária nativa), que ajudaram a manter o passadio da corte e foram agraciados com Comendas e Títulos: Manoel Caetano Pinto cuja fortuna, em 1839, era de 280 contos de réis, José Inácio Vaz Vieira, Antonio Gomes Barroso, Antonio José Ferreira, genro de Manoel Caetano Pinto, com fortuna de 300 contos de réis, e vários outros, entre eles o mais influente e poderoso, Brás Carneiro Leão (1732-1808), o maior e mais poderoso dos negociantes de grosso trato do Rio de Janeiro que, já em 1802, fora agraciado com a Ordem de Cristo e era Cavaleiro da Casa Real e tinha carta de brasão para si e seus 6 filhos. Louis de Freycinet, comentando a vida social do Rio informa que ficou atônito com a opulência das mulheres da família de Carneiro Leão as quais usam jóias de tal magnificência que apenas os diamantes são avaliados em 6 milhões de francos. A viúva de Brás Carneiro Leão, Ana Francisca Rosa Maciel da Costa, é feita por D. João 6o, Baronesa de São Salvador de Campos, a 17/12/1812, e é o 1º brasileiro nato a receber mercê de título nobiliárquico no Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Sua filha, Luisa Rosa Carneiro da Costa (1786-1843), casou-se com Paulo Fernandes Viana, que era íntimo de D. João 6o e administrava a cidade do Rio, e deste casal descendem: Paulo, Conde de São Simão; Maria, Marquesa de Cunha e Ana Luiza, Duquesa de Caxias. Seu filho, José Fernando Carneiro Leão, que tinha o hábito da Ordem de Cristo desde 1810, será Conde de Vila Nova de São José e diretor da Banco do Brasil, sua mulher foi assassinada em Outubro de 1820 e a suspeita cairá sobre Carlota Joaquina. Uma de suas filhas, casa-se com o filho de Rodrigo de Souza Coutinho, 1o Conde de Linhares em 1808, Ministro de D. João VI, que é o exemplo típico da nova nobreza portuguesa iniciada por D. João V, pois representa a nobilitação de mercadores de grosso trato sem nenhuma ascendência de linhagem nobre de sangue, ele era atarracado com cabelos encaracolados e de cor tão morena que os seus desafetos na Corte suspeitavam que ele tinha sangue africano. Sua filha, Ana Carneiro da Costa, será a 1a Viscondessa de Cachoeira. Seu filho, José Alexandre Carneiro Leão, será Visconde de São Salvador de Campos. Sua filha, Francisca Mônica Carneiro da Costa, será Marquesa de Baependi, e mãe do Conde de Baependi e do Barão de Juparanã. Sua neta Mariana será Marquesa de Jacarepaguá. Sua bisneta Francisca será Viscondessa de Carapebús.

10) Estilo de vida e hábitos dos brasileiros da Corte:
Era essa a rotina de vida dos ricos fluminenses: levantavam às 9 horas, desjejum às 10, trabalhavam até às 15, fazem em seguida uma longa sesta e, às 20, tomavam um chá com a família. Quando eram convidados para a casa de amigos iam às 19 e voltavam às 23. Quando tinha baile voltavam às 2 ou 3 horas da madrugada. O almoço/jantar começava com uma sopa de carne com legumes, seguida de frango com arroz e molho picante, entre cada prato uma colherada de farinha de mandioca como se fosse o pão e, para refrescar o paladar, usavam laranjas e saladas. Como sobremesa tinham o arroz doce, queijo de minas, holandês ou inglês, frutas variadas e, para beber, porto ou madeira e o café. Somente os homens usam a faca, mulheres e crianças se servem com os dedos e as escravas comiam ao mesmo tempo, em pontos diversos da sala sendo que, por vezes, suas senhoras lhes dão um bocado com as próprias mãos. Os estrangeiros sentiam repugnância pelo prato de carne seca de Minas com feijão preto e farinha de mandioca, tudo isso cozido e amassado com os dedos que são lambidos no final. Quanto à higiene pessoal, o inglês Henry Koster reparou na cuidadosa limpeza com o próprio corpo que os brasileiros de toda classe tem. A mulher vivia confinada, privada de liberdade, num contínuo isolamento, sempre fechada em casa e mesmo entre a nobreza vigorava a norma da província, de que a mulher só três vezes saía de casa, para ser batizada, para casar, para ser enterrada. As mulheres costumavam sentar-se em esteiras, de pernas cruzadas à maneira oriental, junto às janelas rodeadas de escravas para servi-las. O ócio e a falta de exercícios rapidamente deformavam o corpo das adolescentes que, aos 13 anos assumiam o papel de matronas e, aos 18 já atingiam a plena maturidade física. A beleza feminina da época ia da moça do tipo quebradiço, quase doentio, à mulher gorda, mole, caseira, maternal, de coxas e nádegas largas, com pezinhos deformados por sapatos apertados demais, de seda nas cores branca, azul, celeste, rosa, que duram 2 dias, pois as calçadas são péssimas, só em 1818 chega a moda dos sapatos envernizados de couro que são caríssimos. A cintura de vespa era apertada pelo espartilho. Os cabelos eram longos e com todos os formatos arquitetônicos possíveis e com nomes pitorescos: tapa missa e trepa moleque. Usavam xales de seda, lã, pelo de camelo, renda, tricô, musselina bordada de ouro ou prata. Os homens, sempre de barba e/ou bigode, se vestiam como ingleses e tinham como característica o fardamento das diversas ordens, com guarda roupa composto de calças, calções, camisas, casacos, sobrecasacas, chambre de seda, lenços e gravatas, meias de seda, chapéus, jaquetas e xales de lã, tudo sempre muito colorido. A vida social é muito chata e as distrações pouco freqüentes, pois quase não há reuniões sociais. Os jantares, bailes ou reuniões em casa particular, são coisas quase inexistentes. O 1o teatro foi construído pelo Rei e inaugurado a 12/10/1813, com o nome de Teatro São João, continha 1.020 poltronas e 112 camarotes. Carlota Joaquina achava o Rio sem nenhuma sofisticação e julgava a cidade repugnante, terra de macacos e negros.

11) Como os Bragança criam uma dinâmica social brasileira:
Graças a Napoleão, que provoca a fuga da Corte, tivemos a inserção política do Brasil no Reino de Portugal e a chance de crescer como nação no novo mundo que emerge do turbilhão social que varre a Europa e começa a reestruturar a sociedade européia, pós-revolução francesa, abrindo vários caminhos para o desenvolvimento, pois um rei Português forte, independente e bem instalado na distante Lisboa, jamais teria dado liberdade para que uma classe dirigente do Brasil Colônia ficasse rica e poderosa o suficiente para pleitear sua inserção no teatro centenário da Corte recebendo dignidades e títulos nobiliárquicos. Entretanto o início econômico do Brasil, como nação, foi engolfado pela Inglaterra que se aproveita da debilidade da Corte no exílio e abusa de sua força estrangulando o incipiente desenvolvimento comercial brasileiro. A configuração social da corte de D. João 6o no Brasil é composta de uma mistura da nobreza européia centenária, quase falida, e de nobres de toga mais recentes que eram ricos e vindos da classe comercial graças ao Marquês de Pombal, e da elite da terra brasileira de enorme riqueza e honrados/cooptados com as Insígnias das Ordens centenárias e com Brasões de Armas, dados como prêmio de relevantes serviços prestados ao rei e às grandes doações que permitiram a manutenção do fausto da Corte falida, o que reproduz a mesma dinâmica social estabelecida em Portugal desde D. João 5o (1706-1750). Para conseguir renda e manter a Corte, durante o período que passou no Rio, D. João 6º concedeu títulos a 28 marqueses, 8 condes, 16 viscondes e 21 barões, além de fazer 4.000 cavaleiros. Tal quantidade foi criticada por Pedro Calmon que satiriza esta prodigalidade: tornar-se conde em Portugal exigia 500 anos, no Brasil apenas 500 contos. Esta prodigalidade do Rei D. João 6º consegue, graças a essa inteligentíssima estratégia, exterminar as possíveis ilusões democráticas pós-revolução francesa e lhe permite administrar e controlar, todas as classes sociais na dourada cadeia da subordinação ao Rei, sempre tendo em vista a preservação da pirâmide monárquica na qual esses ricos nativos querem se inserir e mantém sob rígido controle tais indivíduos em seus ofícios e no devido respeito à sua autoridade Real garantindo a sobrevivência da Dinastia, pois o Rei nesta sociedade estamental, de uma monarquia absoluta, é o único dono de tudo e de todos no Reino que é a sua Casa. Esta semente de estrutura social, lastreada na ambição de ascensão social da elite brasileira, irá frutificar com tremenda intensidade no Império que se instala após a volta de D. João 6º a Portugal em 1821, quando os 2 Imperadores se valem desta forte ambição de ser nobre que tem a elite brasileira, para sustentar o Império e lançar as bases da permanência de sua dinastia no Novo Mundo cercando-se em apenas 67 anos de barões, viscondes, condes e marqueses num total de 986 titulares que recebem 1.211 títulos (assim divididos: 3 Duques, 47 Marqueses, 51 Condes, 235 Viscondes e 875 Barões) que tudo devem ao Imperador que lhes concede esta benesse apenas ad personam (de caráter pessoal isto é, vale apenas para o agraciado durante a vida, não sendo a nobreza brasileira hereditária, detendo o Imperador o poder total de administrar com mão de ferro a sucessão do título e manter as famílias sob sua completa dependência, num aprimoramento muito ardiloso do que fazia D. João 6º). Essa multidão de nobres sustenta e protege o Império dos perigosos ventos democráticos que assolavam a Europa pós-napoleônica com toda a lealdade, fidelidade e interesse em perpetuar esta Dinastia que os dignifica como nobres e que, talvez, teria se mantido se houvesse um herdeiro masculino para ser Pedro III.

Autor: Aníbal de Almeida Fernandes: Junho, 2008.

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

O Brasil na 1ª Guerra Mundial e a DNOG

O Brasil na 1ª Guerra Mundial e a DNOG

Sumário dos fatos e condições que levaram o Brasil a entrar na Grande Guerra, suas ações e as conseqüências do conflito

A participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial é um incidente pouco conhecido e, em termos do Conflito, de pequenas conseqüências. Contudo, deu-se em um momento delicado de nossa história e inseriu-se dentro de uma proposta de se obter uma maior participação nacional nos negócios mundiais, de forma que teve uma relativa importância local. Mais importante do que isso, as suas conseqüências econômicas foram marcantes, de forma que abordar o assunto é relevante para o sítio GrandesGuerras, como uma demonstração de como o Grande Conflito influenciou muito a situação mundial, mesmos nos países que tiveram uma pequena participação nele.

A situação do Brasil nas vésperas do conflito não era das melhores. O boom econômico da borracha, que tinha financiado em parte os programas de modernização da marinha (adquiriu dois encouraçados, dois cruzadores e 10 contratorpedeiros do último tipo em 1910) e do exército (comprou centenas de metralhadoras, 212 canhões de diversos calibres e 400.000 fuzis Mauser entre 1905 e 1910) tinha acabado, com a substituição das importações européias pela borracha da Malásia. Isso resultou no fato de que as forças armadas contassem com equipamentos modernos, mas carecessem de meios de operá-los eficazmente.

Por outro lado, a situação social e econômica também era complicada. A economia nacional ainda era basicamente uma fundamentada na exportação de apenas um produto agrícola, o café (na década de 1900 a 1910, correspondia 53% da pauta de exportações, a borracha sendo responsável por outros 26%), e este não podia ser classificado como essencial, de forma que suas exportações (e as rendas alfandegárias, a principal fonte de recursos do governo) diminuíram com o conflito. Isto foi um fator que se acentuou com o imediato bloqueio imposto às Potências Centrais e, mais tarde, com a proibição de se importar café feita pela Inglaterra em 1917, quando esta passou a considerar que o espaço de carga nos navios era necessário para produtos mais vitais, por causa das grandes perdas causadas pelos afundamentos de navios mercantes pelos alemães.

Do ponto de vista da economia não-agrícola, ainda muito incipiente neste período, pode-se dizer a Guerra ajudou no desenvolvimento de uma indústria local, pois foi necessário montar-se um esquema de substituição de importações, com a criação de fábricas aqui, Mas mesmo isso não foi tão acelerado quanto poderia ter sido, pois os tradicionais países exportadores de capital, que financiariam estes empreendimentos fabris, estavam envolvidos no conflito e, sem os recursos provenientes das exportações de café, faltava dinheiro para financiamento industrial.

Aos problemas econômicos, juntavam-se outros, de natureza social. Para se conseguir braços para a lavoura, o Brasil tinha implantado uma política de incentivo à imigração, sendo que no período de 1904 a 1913, tinham entrado mais de um milhão de imigrantes no País – 4% da população total, de 25 milhões. Esses números tornam-se mais significativos quando lembramos que eles vieram a se juntar à outros imigrantes já morando no Brasil e que a maioria de importantes grupos étnicos envolvidos no conflito (duzentos mil italianos, 56.000 alemães e austríacos e 42.000 turcos) se concentravam em um região restrita, São Paulo e, principalmente, nos três estados do sul do País (onde esses imigrantes recentes chegaram a compor por volta de 10% da população total).

Como o governo não tinha uma política de assimilação cultural para esses imigrantes, havia diversos enclaves onde a língua – inclusive a escrita, em jornais – era a de seus países de origem, não havendo uma identificação desses imigrantes com a sua nova nação. Muito pelo contrário, eles se viam mais como nacionais europeus do que como brasileiros.

Finalmente, a crise econômica causada pela Guerra teve suas conseqüências no espaço urbano, com o crescimento dos problemas trabalhistas nas fábricas, ocasionado pelas péssimas condições de trabalho, baixos salários e alta inflação. Estes fatores incentivavam a ação dos anarquistas e outros socialistas entre os trabalhadores, levando ao surgimento de um movimento operário que era contrário à Guerra européia. Por exemplo, uma assembléia realizada em março de 1915 com representantes de organizações e jornais operários, criou uma “Comissão Popular de Agitação contra a Guerra”, que conseguiu uma certa adesão. No dia 1º de maio daquele ano foi feita uma manifestação no largo de São Francisco, com cartazes contra o conflito, entre os quais havia uns onde se lia “Viva a Internacional” [Socialista], “Abaixo a Guerra” e “Queremos a paz”. Nesta ocasião foi lido um manifesto pela paz, onde estava escrito, sem exagero:

“Os efeitos maus da guerra não se delimitam às fronteiras das nações conflagradas. Eles repercutem mais ou menos fundamente por toda a parte. No Brasil, por exemplo, nunca se atravessou crise parecida com a atual. As fábricas, as oficinas estão paradas, e as que ainda não o estão, funcionam dois ou três dias por semana. Formam legiões os operários sem trabalho. Por outro lado, a carestia dos gêneros de primeira necessidade é cada vez mais acentuada. Atravessamos uma situação como jamais se viu. A miséria agora é regra. Milhares de famílias proletárias passam fome”.

Em termos de 1913, os salários perdem 25% do seu valor, enquanto os preços aumentam 23% um ano depois do início da Guerra, fator agravado com o aumento dos impostos gerais, feito pelo governo para suprir a queda das rendas alfandegárias, dando razão aos trabalhadores, que viam na Guerra um dos seus maiores problemas.

Muitos desses problemas sócio-econômicos já existiam e eram evidentes em agosto de 1914, de forma que a decisão do então presidente Hermes da Fonseca, de manter uma estrita neutralidade é perfeitamente compreensível, já que qualquer outra medida só aumentaria os conflitos internos. Apesar disso, o Brasil foi o único país da América do Sul a protestar formalmente contra a invasão da Bélgica pelos Alemães.

No processo de firmar a nossa neutralidade, o presidente baixou o decreto 11.037, de 4 de agosto de 1914, definindo estritas regras de conduta para o País, com a proibição de atracamento de navios de guerra e de recrutamento de pessoal para ir lutar no exterior, além de vedar o armamento de corsários, exportação de material de guerra, instalação de estações de apoio aos beligerantes (inclusive radiotelegráficas) e assim por diante. Esses decretos foram detalhados e ampliados em outros documento legais, os decretos 11.093, de 24 de agosto e 11.141, de 9 de setembro.

Por estas normas, por exemplo, foram internados 45 navios mercantes das Potências Centrais, com cerca de 1.200 tripulantes e até uma canhoneira, a Eber, mas não antes que o armamento e a maior parte do seu pessoal tivessem sido transferidos ilegalmente em Trindade, para armar o corsário Cap Trafalgar. Mesmo assim, a ação de agentes estrangeiros teve continuidade, especialmente entre as comunidades de imigrantes, com a venda de bônus de guerra e um pequeno recrutamento clandestino, principalmente entre os italianos. É óbvio que nem todas as ações contrárias à neutralidade brasileira podiam ser evitadas. O caso dos corsários, como o Möwe, que teria se abastecido e carvão no então distante e abandonado igarapé do Inferno no Amapá (28 de janeiro de 1917) é sintomático dos problemas de nossa marinha em patrulhar a costa, apesar de ter sido criada uma força de patrulha justamente para coibir este tipo de atividade. Registros abundam da ação desses incursores de superfície nas nossas costas, desde o já citado Cap Trafalgar, indo até o Karlsruhe e o famoso Seeadler. Só não se pode dizer que foi totalmente ineficaz, pois a instalação de uma pequena guarnição na ilha da Trindade em 1916, equipada com um rádio, impediu uma repetição do incidente do desarmamento da Eber: quando o corsário Wolf, de acordo com as memórias de seu comandante, percebeu o tráfego de rádio vindo de Trindade, ele deixou de usar a ilha como ponto de abastecimento de carvão.

Independentemente da vontade brasileira e da eficiência da aplicação das normas, a política de neutralidade tinha seus problemas. O Brasil, por exemplo, não considerava o café como material de guerra – nem o poderia fazer, já que era a base de sua economia –, mas o produto era visto como contrabando por todos os beligerantes, estando sujeito a imediata apreensão assim que fosse descoberto a caminho de um porto inimigo. Isso resultou na imediata proibição de venda para as Potências Centrais, mas conseguimos manter um certo comércio com os aliados, vendendo café aos ingleses (pelo menos até 1917), e aos franceses durante o conflito. Isso não foi muito problemático nos dois primeiros anos da Guerra, pois, de acordo com as normas do direito internacional, um bloqueio só poderia ser declarado se ele pudesse ser efetivamente implantado, com a inspeção de navios suspeitos, para procura de contrabando de guerra. Devido à superioridade naval inglesa, era impossível aos alemães estabelecerem um bloqueio nesses termos aos portos aliados, de forma que nossos navios, navegando totalmente iluminados, com o nome do País pintado no casco e a bandeira içada, para não serem confundidos com navios de guerra, podiam seguir até os portos aliados.

Desta forma, somente um navio brasileiro, o Rio Branco, foi afundado por um submarino nos primeiros anos da guerra (em 3 de maio de 1916), mas este estava em águas restritas, operando a serviço inglês e com a maior parte de sua tripulação sendo composta por noruegueses, de forma que, apesar da comoção nacional que o fato geral, não poderia ser considerado como um ataque ilegal dos alemães.

Esta situação de paz se alterou em 1º de fevereiro de 1917. Neste momento, o almirante Tirpiz, convencido que uma campanha irrestrita de ataques ao comércio teria condições de retirar a Inglaterra da Guerra, autorizou seus submarinos a afundar qualquer navio que entrasse nas zonas de bloqueio, sem as formalidades legais da vistoria para verificar se o navio portava contrabando ou não.

Sabedor dessa medida, Lauro Müller, o ministro das relações exteriores do Brasil, apesar de ser considerado germanófilo (era descendente de alemães), reuniu os embaixadores e representantes de outras nações sul-americanas em Petrópolis, conseguindo o apoio para uma tomada de posição firma por parte do Brasil, com relação a nova política alemã, fato este que foi facilitado pelo fato noticiado na imprensa, poucos dias depois, da descoberta de uma estação de rádio clandestina alemã, em Niterói. Mesmo assim, em 9 de fevereiro, o ministro das relações exteriores alemão, Zimmerman, encaminhou um ofício a Lauro Müller, nos seguintes termos:

“... contra suas intenções, devido à atitude dos inimigos da Alemanha, [esta] se vê na obrigação de abater as restrições às quais se sujeitou o emprego de suas forças navais durante quase dois anos, apesar dos importantes interesses militares prejudicados por semelhante resolução”.

O documento era acompanhado de outro, a notificação de bloqueio de 31 de janeiro, em que se colocava que:

O Governo Imperial [da Alemanha] não poderia assumir a responsabilidade perante sua própria consciência, perante o povo alemão, perante a História, de não utilizar todos os meios para apresar o fim da Guerra. Tinha sido o desejo e a esperança de ai chegar por via de negociações. Os adversários têm respondido à tentativa de entrar nesse caminho pela declaração de intensificar a luta. O Governo Imperial, para servir a humanidade em sua expressão mais alta e para não se sobrecarregar com pesada falta aos olhos de seu próprio povo, deve pôr em ação todos os meios a fim de continuar a luta a que foi compelido para defender sua existêcnia. Vê-se forçado pois a suprimir as restrições mantidas até agora no emprego dos meios de combater no mar ...”

No mesmo dia do recebimento do documento, o embaixador na Alemanha o respondia, afirmando que os termos da proclamação eram inaceitáveis, pois o bloqueio por submarinos não poderia ser considerado como legal e efetivo, além de protestar contra as imensas áreas declaradas como estando sob bloqueio e contra a forma como as operações se dariam, sem restrições. O protesto brasileiro terminava concluíndo:

Por isso o Governo brasileiro, não obstante o seu sincero e vivo desejo de evitar divergências com as nações amigas ora em luta armada, sente-se no dever de protestar contra esse bloqueio, como efetivamente protesta e, em conseqüência disso, deixo ao Governo alemão a responsabilidade de todos aqueles casos que se derem com cidadãos, mercadorias e navios brasileiros, desde que se verifique a postergação dos princípios reconhecidos do Direito Internacional ou de atos convencionais dos quais o Brasil e a Alemanha sejam parte”.

Os protestos brasileiros caíram em ouvidos moucos. Em 5 de abril o Paraná, um dos maiores navios da nossa frota mercante (4.466 toneladas), carregado de café, foi torpedeado a 10 milhas do Cabo Barfleur, na França, apesar de vir iluminado, estar com a bandeira brasileira içada e ter a palavra “Brasil” pintada no casco. Somando-se a esta ofensa, o submarino alemão, emergindo, ainda disparou cinco tiros de canhão contra os náufragos, além de, obviamente, não prestar socorros a eles.

A reação do governo foi a de se recusar a receber o embaixador alemão, Pacti, que tinha ido apresentar explicações sobre o incidente. De forma mais contundente, as relações diplomáticas com a Alemanha foram rompidas no dia 11 do mês, com o argumento de que o bloqueio germânico era ilegal do ponto de vista do direito internacional, não sendo aceito pelo Brasil, além da desumanidade do ataque feito contra o Paraná. Neste momento foram devolvidos os passaportes aos funcionários alemães no Brasil, não mais vistos como personas gratas. Além disso, se assumiu a posse legal dos navios mercantes alemães surtos nos nossos portos, sem os confiscar, contudo, só se determinando que fossem colocados guardas a bordo deles, para reduzir a sabotagem que já estavam sofrendo por parte de suas tripulações.

A neutralidade, contudo, foi mantida, como pode-se observar pelo decreto 12.458, de 25 de abril, que declarava o País neutro no conflito que se estabelecia entre as Potências Centrais e os Estados Unidos, que tinham entrado em guerra em 9 do mês, ainda em função da campanha submarina irrestrita. Essa decisão moderada não foi bem vista por todos. O povo foi as ruas, clamando por uma reação mais forte do Governo, posição que foi apoiada por políticos da oposição, como Rui Barbosa, que fez um discurso dizendo que o mero abandono da neutralidade não seria suficiente – nada além da entrada na Guerra satisfaria a nação. Rui Barbosa colocava ainda que a posição do Brasil era semelhante à dos EUA, perguntando se as vidas dos brasileiros valeriam menos do que as dos norte-americanos, já que eles tinham entrado na Guerra e nós não.

Se a declaração de guerra dos EUA a Alemanha não tinha sido suficiente para parar o conflito, certamente não seriam os protestos do Brasil que fariam diferença, de forma que a campanha submarina contra o comércio continuou – e as conseqüências disso para o Brasil não tardaram. Em 20 de maio outro navio brasileiro, o Tijucas, foi afundado ao largo de Brest, sendo seguido seis dias depois, pelo Lapa, que foi inspecionado e afundado por três disparos de um submarino, ao largo da Cabo Trafalgar.

Em função desses ataques, o presidente Wenceslau Brás declarou sem efeito nossa neutralidade em relação aos EUA (permitindo o uso de nossos portos e outras pequenas vantagens aos navios de guerra norte americanos), fato que foi aproveitado logo pelos americanos, que enviaram uma esquadra com quatro encouraçados em meados de junho, para fazer uma visita de boa vontade ao Brasil. Wenceslau Brás também autorizou o uso dos navios alemães que aqui se encontravam (decreto legislativo 3.266, de 1 de junho e decreto 12.501, de 2 de junho). Finalmente, os benefícios dados aos norte-americanos foram estendidos a neutralidade em relação a França, Inglaterra, Japão e Portugal, mantendo uma dúbia neutralidade em relação aos conflitos que ocorriam entre a Itália e Alemanha e entre os aliados e a Áustria-Hungria, Império Otomano e Bulgária.

Esses fatos foram recebidos de forma diversa pela população: um importante segmento, alimentado pela máquina de propaganda, assumia uma posição agressiva contra as Potências Centrais, como quando da suposta descoberta pelo Contra-torpedeiro Maranhão do que seria uma base de operações de submarinos alemães em Combari, perto de Santos, ou a acusação de que o incêndio do jornal o “O Paiz” teria sido causado por uma alemão, de nome Hubner, dentro de uma atuação de sabotagem semelhante a que ocorria nos EUA. Para atender essas pessoas – e mostrar uma posição firme – o general Lauro Müller foi substituído no ministério por Epitácio Pessoa.

Mas a ameaça de guerra não tinha conseguido afastar de todos os problemas que o conflito vinha trazendo ao País. A questão operária, tratada como se fosse “caso de polícia”, vinha recrudescendo, com o aumento do custo de vida, inflação e congelamento de salários, a ponto de estourar a primeira grande greve entre os operários de São Paulo. Em junho de 1917, estes cruzam seus braços, pedindo 20% de aumento, em 14 de julho o número de grevistas chegava a 40.000 e o movimento se alastrava para Santos e Campinas. Alguns aumentos são obtidos e o movimento se encerra, mas é considerado um marco no movimento sindical brasileiro e pode ser usado também como índice do aumento da industrialização, pois agora o setor urbano já era numeroso suficiente para causar preocupações ao governo.

Do ponto de vista do conflito externo, a situação continuava a mesma, a campanha de submarinos prosseguia e o Brasil tinha que manter seu comércio de exportação de café, de forma que novos confrontos eram inevitáveis. Os navios alemães apresados aqui faziam parte da “Lista Negra” aliada, o que permitia a sua apreensão pelos aliados, mas o Brasil fez um acordo com a França, arrendando 30 deles (com tripulações brasileiras) e passando a usar os 15 outros, retirados da lista negra. Os que não se encontravam muito sabotados por seus tripulantes alemães (recolhidos em campos de internação no Rio de Janeiro), foram imediatamente postos em uso no comércio exterior. Um desses, o Macau, ex-Palatia, em 18 de outubro estava com uma carga de café a 200 milhas do Cabo Finesterra, quando foi parado por um submarino alemão. O capitão do navio, seguido por seu despenseiro, foram a bordo do submarino com os papeis do cargueiro, sendo aprisionados (e nunca mais vistos). O navio em seguida foi torpedeado.

O conflito já existia de fato e só restava ao governo brasileiro reconhecer a existência do estado de guerra (o Brasil nunca declarou guerra a ninguém). Assim, o presidente Wenceslau Brás enviou em 25 de outubro uma mensagem ao congresso, onde dizia: ... não haver como iludir a situação ou deixar de constatar o estado de guerra que nos é imposto pela Alemanha”. O Congresso, no dia seguinte, aprovava o decreto 3.361, onde se “reconhecia e proclamava o estado de guerra iniciado pelo Império Alemão contra o Brasil”.

Os contra-torpedeiros Piauí e Mato Grosso foram enviados para a Bahia, para capturar a canhoneira Eber, mas os tripulantes desta conseguiram incendiar o navio antes que pudessem ser detidos. Além disso, como uma das primeiras medidas de reforço da nacionalidade, os jornais em língua alemã foram proibidos. Mas esses atos não atendiam os interesses da população dos políticos, que queriam uma participação mais ativa, como uma forma de vingança e para desviar a atenção dos problemas internos. Desta forma, foi criada a Divisão Naval em Operações de Guerra (D.N.O.G.), além de ter sido declarado o Estado de Sítio nos estados do Sul (com numerosos imigrantes estrangeiros) e no Rio de Janeiro e São Paulo, por causa das agitações operárias.

A iniciativa da criação de uma divisão naval tinha sido apresentada pelo Brasil na conferência de Paris, no final de novembro, com a oferta de dos dois cruzadores leves (Bahia e Rio Grande do Sul) e de quatro contra-torpedeiros, para operar no circuito Dacar-São Vicente-Gibraltar. Aceita a oferta, a Divisão foi criada em 30 de janeiro de 1918, com do citados cruzadores e os contra-torpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina, sob o comando do contra-almirante Pedro Max Fernando de Frontin. Este pediu a cessão de um navio para servir de tender, tendo-lhe sido designado o Belmonte (ex-alemão Valesia), armado como cruzador auxiliar. Finalmente, o rebocador Laurindo Pita (hoje preservado como navio-museu no Rio de Janeiro) completava a DNOG, com um efetivo total de 1502 homens: 75 oficiais de armada, 4 médicos, 50 oficiais de máquinas, 5 oficiais comissários (intendentes), um farmacêutico, um dentista, um capelão, um sub-maquinista, 41 sub-oficiais, 43 mecânicos, 4 auxiliares de fiel, 702 marinheiros, 481 foguistas, 89 taifeiros, um padeiro e três barbeiros.

Deve-se observar que essa oferta não era apenas simbólica – os aliados necessitavam urgentemente de navios e tripulações para o serviço de escolta de comboios. Por exemplo, 22 comboios (19 lentos e 3 rápidos) foram organizados entre o Rio de Janeiro e a Inglaterra em 1917 e 1918 e para acompanhar esses comboios eram necessários navios de guerra – e isto em uma frente secundária. O desespero por navios e, mais ainda, tripulações, era tal que a Inglaterra teve que desativar alguns encouraçados velhos para usar as tripulações em navios de escolta e aceitou-se até o envio de uma esquadra de destróieres japoneses para operar no Mediterrâneo, cedendo a eles também dois contratorpedeiros ingleses, para serem tripulados por nipônicos.

Mesmo sendo uma medida necessária, a formação da flotilha brasileira sofreu de uma série de problemas, desde o início. Os navios brasileiros, lançados ao mar em 1910, não estavam equipados para a guerra anti-submarina: não tinham hidrofones para detecção de embarcações submersas e não havia calhas especializadas para o lançamento de bombas de profundidade. Além disso, os navios eram movidos por máquinas a vapor queimando carvão, o que exigia um número elevado de foguistas e demandava reabastecimentos constantes, fator agravado pelo pequeno porte de todas as embarcações – os contra-torpedeiros tinham somente 600 toneladas e um raio de ação muito limitado, exigindo constantes transferências de carvão, atividade muito complicada de ser feito em alto-mar. Finamente, devido à própria Guerra, que impedia o fornecimento de peças de reposição, as caldeiras dos cruzadores precisavam ser reparadas, o que não pode ser feito no Brasil.

Apesar de todos os pesares, a Divisão seguiu para o Teatro de operações em 16 de julho de 1918. Na viagem, o incidente mais notável teria sido um ataque de torpedo feito contra o tender Belmonte, nas proximidades de Dacar, felizmente não bem sucedido. O suposto submarino foi atacado por tiros de canhão e bombas de profundidade, mas o ataque e o possível afundamento do submarino não puderam ser confirmados. Contudo o almirantado inglês informou sobre o desaparecimento de um submarino alemão que operava na rota da DNOG.

Em Dacar, onde a Divisão chegou em 26 de agosto, após sucessivas paradas na rota, os navios receberam ordens de operar na área de Cabo Verde, até então só patrulhada – de forma inadequada – por duas canhoneiras inglesas. Os problemas, entretanto, continuavam. O vírus da gripe espanhola, adquirido em Freetown, começou a causar baixas (no final, a DNOG perderia 110 mortos e 140 incapacitados pela doença: 17% do seu efetivo total). Somava-se a isso os problemas mecânicos, que imobiliziram os dois cruzadores e um dos contra-torpedeiros, o que certamente reduziu em muito a eficácia de ação da Divisão.

Após algum tempo, nossos navios receberam ordens dos ingleses para seguirem para Gibraltar, tendo ocorrido na rota alguns incidentes. O Almirante Frontin fora alertado pra tomar cuidado, pois o encouraçado Britânia, designado para acompanhar a flotilha brasileira tinha sido afundado em rota por um submarino e havia um alerta de presença de submersíveis na área. Desta forma, foi com muita tensão que navegamos, o que pode ser a explicação de duas confusões que ocorreram. A primeira foi a muito conhecida “batalha das toninhas”, quando um cardume destes peixes foi confundido com o rastro de um periscópio, fazendo com que o Bahia disparasse seus canhões contra os peixes. O outro incidente foi um ataque de canhões, feito pelo contra-torpedeiro Piauí contra o caça-submarinos 190 da marinha norte-americana, confundido com um submarino devido às suas pequenas dimensões, felizmente sem causar danos ao navio aliado, que logo se identificou.

A Divisão chegou a Gibraltar no dia 10 de novembro, às vésperas do armistício, retornando ao Brasil após uma visita de boa vontade à Inglaterra. A ação da DNOG não foi das mais gloriosas. Mesmo tendo sido uma tentativa de mostrar nossa capacidade e vontate de combater o inimigo, serviu mais para ilustrar as deficiências que nossa incipiente marinha tinha que superar. Isso fica claro nos “comentários finais” escritos na História Naval Brasileira, a obra oficial que trata do assunto:

“A DNOG escreveu página mais triste do que gloriosa da História da Marinha brasileira. Mas nossa participação na Primeira Guerra, com suas dificuldades e limitações, foi grito de alerta sobre a importância de se manter permanentemente força naval pronta e adestrada, mesmo que modesta, pois, dispondo-se do material, os marinheiros que o guarneceriam não desmentirão, a bravura, a abnegação, o entusiasmo, o espírito de sacrifício, que foram o apanágio das tripulações da DNOG”.

Afora a participação da Divisão Naval, o Brasil também enviou um hospital completo para Paris, com 100 médicos e pessoal de apoio, assim como oficiais para participarem do conflito, aprendendo as últimas técnicas que estavam sendo desenvolvidas, como as relativas à aviação (oito pilotos lutaram com a RAF, sete da marinha e um do exército) e em terra. Houve até um oficial que esteve presente na Batalha de Jutlândia e outros combateram na Frente Ocidental. Um deles, o tenente Carlos de Andrade Neves, morreu de doença enquanto servia no 8º Regimento de Artilharia de Campanha Francês, em 1918.

Destes oficiais que serviram no exército francês, o caso mais importante e famoso foi de José Pessoa Cavalcanti de Albuquerque, que comandou pelotões de cavalaria francesa de três regimentos diferentes, sendo que pelo menos em um dos casos ele comandou uma pequena unidade do 504 Regimento de Dragões, equipados com tanques (Renault FT-17). A experiência adquirida com esses carros e o papel deles no conflito fez com que o exército comprasse o primeiro material blindado do País, uma companhia de 12 carros Renault FT-17, que seria comandada por Albuquerque. A experiência dele com os carros permitiu também que eles fossem adaptados para o Brasil, corrigindo-se uma série de pequenos defeitos de projeto. Por essas razões o General Albuquerque é conhecido como o pai da força blindada brasileira.

Além disso, a Guerra – e a compreensão das novas realidades causadas pelo conflito – facilitou em muito a implantação do recrutamento obrigatório no Brasil. Esta era uma campanha que vinha sendo desenvolvida à vários anos pela Liga de Defesa Nacional, e por alguns expoentes de nossa cultura, o maior de todos sendo o poeta Olavo Bilac. Entretanto, essa proposta não tinha tido muito sucesso. Durante a Guerra, todos os grandes exércitos passaram a ser compostos de recrutas conscritos, sendo que alguns dos grandes exércitos já antes da Guerra eram compostos de cidadãos que tinham recebido o treinamento básico durante a paz (54% dos homens franceses em idade militar antes de 1914 tinham recebido esse treinamento). Os antigos exércitos profissionais, de pequenos efetivos, não tinham mais lugar na nova guerra de massa, e isso forçou o Brasil a adotar o recrutamento em 1917 – um fato de grande efeito, pois até hoje nosso exército é formado por um grande número de conscritos que recebem treinamento básico, formando as reservas mobilizáveis em caso de guerra.

Os beligerantes também prestaram apoio às forças nacionais, com o envio de missões militares e material de guerra. Os franceses cederam, por exemplo, trinta aviões, base de nossa incipiente aviação militar. Mais tarde, o Brasil contrataria uma missão militar francesa, para treinar nosso corpo de oficiais, fato que teria profundas implicações, já que duas gerações de oficiais foram treinados e instruídos pelos Franceses, entre 1921 e 1934.

Do ponto de vista da paz, o Brasil enviou uma imensa comitiva para participar da conferência de Versalhes, chefiada pelo futuro presidente Epitácio Pessoa. Esta comitiva conseguiu incluir dois parágrafos no acordo de paz, um relativo à indenização de sacas de café apreendidas em portos alemães quando da declaração da Guerra e outro relativo a venda dos navios alemães apresados (menos dois, apreendidos pelos Franceses), ambas em condições favoráveis a nós. O Brasil também foi um dos fundadores da Liga das Nações, órgão que antecedeu as Nações Unidas e na qual nossos diplomatas colocaram grandes esperanças, pelo menos inicialmente. A decisão norte-americana de não participar da Liga, e medidas posteriores tomadas por esta, nos desiludiram, fazendo com que o Brasil abandonasse a Liga alguns anos depois, sendo a saída Brasileira considerada por muitos como um símbolo do fracasso daquela organização.

Internamente, a Guerra implicou em uma transformação interna mais profunda. A necessidade de substituir importações tinha levado ao surgimento de um núcleo industrial maior e este tinha sido financiado, basicamente, por capitais norte-americanos, já que a Inglaterra, antiga financiadora primordial, não era mais capaz de faze-lo, marcando uma mudança de orientação na formação de nossa dependência econômica, situação que só viria a se acentuar ao longo das décadas seguintes.

De um ponto de vista econômico mais imediato, a crise da Guerra não seria totalmente solucionada com o término do conflito. A isso somava-se a visão de diversos setores – interessados na modernização do País – de que uma economia dependente de apenas um único produto agrícola não era aceitável, o Brasil precisando de reformas econômicas e sociais. Esta visão de que reformas eram necessárias, claramente representada pelos oficiais mais jovens das forças armadas, os Tenentes, fizeram com que o período que se seguiu a Guerra fosse marcado por revoltas internas, como o movimento dos “18 do Forte” e a coluna Prestes – todo o mandato de Epitácio Pessoa (1922 a 1926) foi passado com o país em Estado de Sítio devido a estes movimentos e o problema só se resolveria em 1930, com a ascensão ao poder de Vargas e a queda do poder dos cafeicultores de São Paulo.

Desta forma, mesmo que a participação brasileira no conflito tenha sido restrita, a 1ª Guerra teve profundas e duradouras conseqüências, tanto militares, como sociais e econômicas.

Fonte deste artigo: Adler Homero Fonseca de Castro